COLUNA DO PROFESSOR WALTERLI LIMA: A CASA ONDE FUI FELIZ.

A CASA ONDE FUI FELIZ.

Como mudou a paisagem da minha vida.
Como mudou a paisagem diante dos meus olhos.
Vejo-me defronte a rua onde existira a casa onde fui feliz.
Outrora, um lar.
Depois, uma tapera em ruínas.
Hoje, paredes frias de uma loja de negócios.
Somente a terra pisoteada no chão é testemunha da casa onde fui feliz.
Testemunha do tempo de uma felicidade quase primata, de nada saber sobre o mundo, nada pensar sobre o ser ou sobre o que haveria de ser.
Cabisbaixo, troco passos lentos, como quem procura algo perdido.
E como num regresso de quem partiu e nunca mais voltou, volto-me para diante do concreto imóvel, pisando sobras e sombras da casa onde fui feliz.
Vêm em mim memórias há tempos adormecidas.
Lembro-me da mesa cheia ao meio-dia,
da comida repartida nos pratos,
dos cheiros tão familiares aos meus sentidos,
dos olhares cúmplices que nunca mais encontrei.
São tantas vidas vividas,
são tantas coisas erguidas, vividas e erguidas nas margens da estrada frágil do tempo.
O tempo, uma locomotiva sem freios rumo a lugar nenhum.
Ah, aquele menino de felicidade quase primata…
Ninguém lhe contou o que estava por vir.
E veio.
Veio sem avisos prévios.
Veio o tempo.
Veio a morte.
Veio o vento que muda todas as coisas.
E ambos arrastaram para o infinito da inexistência das coisas e dos seres a casa onde fui feliz.
E nenhuma força centrífuga do universo, nem a gravidade de todos os sóis que existem, nem a alquimia de todas as ciências do mundo faz cessar o escuro que arrasta tudo para o esquecimento.
O que me tornei?
Mudei de rua.
Arrumei um trabalho.
Ergui entre mim outras paredes.
Aprendi a pensar, ou ao menos penso que sei pensar.
E nesse pensamento, resto do que vivi e que aos poucos foge da memória, como um corpo que se perde no nevoeiro da madrugada, perco-me de mim mesmo, de todos os sonhos que nunca sonhei e de tudo o que deixei de ser e não fui.
Quantas versões de mim mesmo esqueci?
Quantas outras almejei sem nunca alcançá-las?
Quantas histórias findandas sem um ponto final?
Ah, aquele menino de felicidade quase primata…
Ele não está mais aqui.
Não está na rua,
nem nas paredes frias da loja de negócios.
Ele se foi junto da casa onde fui feliz.

Walterli Lima

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