Hoje, 15 de outubro, é o Dia do Professor. Ontem e hoje, os professores da educação básica receberam, ou ainda devem receber, algumas lembranças carinhosas de suas direções e coordenações pedagógicas, de alguns alunos e – o que se tornou raro. Mas, enquanto professor, posso afirmar: não temos muito o que comemorar.
A docência, que deveria ser um exercício de criação intelectual e prática social emancipadora, foi reduzida a mera execução de tarefas. O professor tornou-se operador de planilhas, executor de planos impostos e guardião de metas inatingíveis.
O ensino foi transformado em um conjunto de indicadores, e o sentido pedagógico se perdeu em meio a plataformas, prazos e relatórios. É a pedagogia da métrica: o controle substitui a confiança, o número substitui o saber, e o ato de ensinar converte-se em performance mensurável.
O mal-estar docente tornou-se regra. O que antes era vocação agora é resistência. Resistência a jornadas duplas e triplas, a baixos salários, a escolas sem estrutura, a políticas públicas que tratam professores como peças descartáveis. Resistência ao autoritarismo das coordenações dos níveis centrais e à interferência dos que, longe das salas de aula, ditam o que deve ser ensinado, ignorando o chão concreto onde a educação acontece. É o professor quem enfrenta o barulho ensurdecedor, o cansaço, o desinteresse, as violências – e ainda precisa sorrir para as fotos oficiais do “Dia do Professor”.
Antes de tudo, vale lembrar que existe uma lei federal – Lei nº 11.738/2008 – que institui o piso salarial profissional nacional para os professores do magistério público da educação básica. Contudo, não raro municípios e estados deixam de cumpri-la, sob o pretexto de limitações orçamentárias ou de “autonomia local”.
Esse descumprimento sistemático expõe a fragilidade institucional da valorização docente: o piso deveria ser o patamar mínimo garantido, mas, em muitos casos, é apenas uma referência formal, ignorada na prática.
A negligência legal reforça o fosso entre o discurso de valorização e a realidade salarial concreta, mantendo os professores submetidos à instabilidade e à desvalorização. No dia de hoje, podemos dizer que estamos cansados dos tapinhas nas costas acompanhados de um “parabéns, mestre” vazio.
Talvez, um dia, possamos comemorar de fato. Quando o professor deixar de ser mártir e voltar a ser sujeito; quando o Estado compreender que investir em educação não é custo, é soberania; quando ensinar não significar resistir, mas criar. Até lá, o 15 de outubro seguirá sendo um lembrete – não apenas de homenagem, mas principalmente de luta.





